Quando uma dieta viraliza no TikTok, ela tem aproximadamente 48 horas antes de ser compartilhada por milhões de pessoas que não têm a menor ideia do que estão fazendo com o próprio metabolismo. E eu uso esse número sem hipérbole.
Não tenho nada contra as redes sociais como ferramenta de informação em saúde. Tenho muito contra o modelo de autoridade que elas criam. Um vídeo de 60 segundos com um fundo bonito, uma pessoa aparentemente saudável e uma promessa de resultado em 7 dias não é orientação de saúde. É conteúdo. E existe diferença enorme entre os dois.
Vou falar de algumas das dietas que mais circulam atualmente, o que a ciência diz sobre elas — e por que "funcionou para mim" não é argumento suficiente.
A dieta carnívora: proteína e gordura, nada mais
A dieta carnívora elimina todos os alimentos de origem vegetal e consiste exclusivamente em carnes, ovos, laticínios e derivados animais. Os defensores atribuem a ela benefícios que vão de emagrecimento a remissão de doenças autoimunes e melhora de performance cognitiva.
O que existe de evidência? Estudos de curto prazo mostram perda de peso significativa — o que é esperado em qualquer dieta restritiva. A eliminação de carboidratos induz cetose e, com ela, diminuição do apetite e redução da retenção hídrica. Isso parece bom no espelho e na balança. Mas o longo prazo é outra história.
A ausência de fibras tem impacto na microbiota intestinal que ainda não compreendemos completamente — mas o que entendemos não é animador. A ausência de fitoquímicos, vitamina C e outros compostos presentes exclusivamente em vegetais também é uma preocupação real. Os relatos de remissão de doenças autoimunes existem, mas são anedóticos. Não temos ensaios clínicos controlados de longo prazo.
Para pessoas com síndrome do intestino irritável grave ou condições específicas, a redução de fibras fermentáveis pode trazer alívio. Isso não justifica recomendar dieta carnívora para qualquer pessoa que assiste a um vídeo no TikTok.
A dieta OMAD: uma refeição por dia
OMAD — One Meal A Day — é uma forma extrema de jejum intermitente. Você concentra toda a ingestão calórica em uma única janela alimentar, geralmente de uma hora.
O mecanismo que a torna atraente é real: a restrição de janela alimentar reduz a oportunidade de comer em excesso e melhora a sensibilidade à insulina em algumas pessoas. Há estudos interessantes sobre jejum intermitente em janelas menos extremas — 16:8, por exemplo.
O problema com OMAD é a ingestão proteica. É biologicamente muito difícil — para a maioria das pessoas — consumir quantidade adequada de proteína em uma única refeição de forma que resulte em síntese proteica muscular eficiente. O músculo não consegue usar mais do que certa quantidade de proteína de uma vez. O restante é oxidado ou excretado. Resultado prático: perda de massa magra ao longo do tempo.
Para quem já tem sarcopenia incipiente — e isso começa antes dos 40 anos em muitas pessoas — OMAD é uma receita para acelerar o declínio muscular. Não é emagrecimento. É o tipo de composição corporal que a medicina preventiva passa anos tentando reverter.
A dieta líquida de 3 dias
Três dias de sopas, sucos e caldos. Perda de 3 a 5 kg. Muito compartilhada. Muito ineficaz do ponto de vista real.
O peso que some em três dias de dieta líquida é, em sua maior parte, glicogênio muscular e hepático (acompanhado de água — cada grama de glicogênio retém cerca de 3 gramas de água) e conteúdo intestinal. Não é gordura. A gordura não vai embora em três dias.
Quando a alimentação normal é retomada, o glicogênio é restaurado, a água retorna, e o peso volta. As pessoas interpretam isso como "falta de disciplina". Não é. É fisiologia básica.
O pior efeito colateral não é o peso que volta. É que essas experiências reforçam a crença de que o corpo é difícil de controlar, que dieta é sofrimento, e que resultados sustentáveis são impossíveis. Isso mina a relação da pessoa com a própria saúde por anos.
O protocolo do influenciador biohacker
Esse me é especialmente irritante, então vou ser direta.
O "biohacking" virou um guarda-chuva que abriga desde práticas com embasamento científico razoável até completa pseudociência vendida com terminologia técnica convincente. Banhos de gelo, luz vermelha, jejuns de 72 horas, cocktails de suplementos que custariam R$3.000 por mês — tudo apresentado como otimização do corpo humano com a autoridade de alguém que leu alguns artigos no PubMed.
O problema não é necessariamente cada prática isolada. É o pacote. É a promessa de que você pode "hackear" sua biologia sem exames, sem acompanhamento, sem contexto clínico individual. É a democratização da automedicação embalada em estética de tecnologia.
Já atendi pessoas com hipotireoidismo que interromperam levotiroxina porque um podcast convenceu que dava pra "curar a tireoide naturalmente". Já vi resistência à insulina avançar em silêncio enquanto a pessoa estava ocupada com protocolos de "otimização". O corpo não é software. Ele não aceita patches sem custo.
O que torna uma dieta cientificamente válida?
Antes de seguir qualquer protocolo alimentar — viral ou não — há perguntas que precisam ser respondidas. Existe ensaio clínico randomizado? Com qual população? Por quanto tempo? Quais foram os desfechos medidos — apenas peso, ou também composição corporal, marcadores metabólicos, mortalidade?
A maioria das dietas virais passa muito mal nessa análise. Não porque sejam necessariamente perigosas — algumas têm benefícios reais para grupos específicos. Mas porque foram generalizadas para todo mundo sem evidência de que isso é seguro ou eficaz.
Dieta mediterrânea, dieta DASH, dietas de baixo índice glicêmico e dietas com restrição calórica moderada associadas a adequação proteica e treino de força — estas são abordagens com evidência relevante para a saúde metabólica de longo prazo. Não são virais. Não têm vídeo de 60 segundos. E funcionam.
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Perguntas e Respostas
Se uma dieta viral funcionou para alguém, isso não prova que ela é válida?
Prova que funcionou para aquela pessoa, naquele contexto, por aquele período. Relato individual não é evidência generalizável. Pessoas diferentes têm microbiota, genética, histórico de saúde, condições hormonais e estilo de vida completamente distintos. O que funciona para um pode ser neutro, ineficaz ou até prejudicial para outro.
Como identificar um influenciador de saúde confiável?
Formação verificável, referências a estudos publicados, linguagem que inclui incerteza quando ela existe ("a evidência sugere", "em alguns grupos"), ausência de promessas de cura, disponibilidade de reconhecer limitações do próprio conhecimento. Desconfie de quem tem resposta para tudo e de quem nunca diz "depende".
Posso fazer jejum intermitente sem supervisão médica?
Depende. Para pessoas saudáveis sem condições metabólicas diagnosticadas, protocolos simples como 16:8 costumam ser seguros. Para quem tem diabetes, hipoglicemia, histórico de transtorno alimentar, está grávida ou amamentando, ou usa medicações que afetam glicemia — a conversa com o médico é obrigatória antes.